
Os dois
Analisando friamente a figura, não se via nada demais! Na verdade, era como qualquer outra pessoa, aparentemente sem destaque. Porém, quem a conhecia afirmava que Mocinha estava longe de ser uma mulher comum. Sempre que passava deixava no ar aquele aroma de incertezas. Mesmo não sendo ainda casada, namorados e pretendentes aos montes rodeavam sua casa. Promessas, presentes, propostas de futuro próspero, humilhação, decepção, juras de morte, todas feitas pelos seus antigos pares, nunca faltaram ao seu histórico de relacionamentos.
Marcelinho jogava bola como ninguém na região. Já fizera parte do elenco de diversos clubes e dessa vez tinha acertado a mão, ou melhor, o pé, em cheio com o sucesso do seu time na última temporada. Tinha sido considerado a grande descoberta do Atleticano Futebol Clube nos últimos tempos. Era um jogador de uma habilidade absurda. Habilidade esta já reconhecida por seus amigos de pelada. Driblava correndo e olhando em sua volta; Conduzia a bola sempre de cabeça erguida, chutava de três dedos, de chapa, de bico com a maior eficiência e objetividade. Seu futuro de sucesso era certo e a comprovação viria ao final do campeonato estadual com a proposta de um grande clube do futebol brasileiro. Era de fato um ídolo.
Eis que ao final do campeonato surge uma proposta milionária para a jovem revelação do futebol brasileiro. Dinheiro a dar com pau. Dinheiro e fama para tirar qualquer pessoa do rumo e da rotina dos menos propensos a fortuna. Fama que já se espalhara por toda a região, por todo o estado, por todo o país e estava preste a ganhar o mundo. Era batata, nada seguraria a nova revelação do futebol brasileiro de estourar no cenário esportivo mundial. O contrato já estava sendo aprontado e as bases salariais definidas. Em poucos dias teria de se mudar.
Dona Mocinha, por sua vez, era pobre, desafortunada, sem modos e sem ambição. Ainda não tinha filhos, não sabia se por sorte ou por incapacidade. Manicura de profissão, não trabalhava muito, mas sabia muito da vida de todos e se exibia com o seu nome pronunciado pela boca dos outros nas rodas de fofoca. Era apenas mais uma suburbana, com um charme vulgar, com uma sensualidade deselegante e com muita malícia no seu comportamento. Era daquele tipo de mulher que cheirava a sexo, que assumia a rasa postura de uma persona diabólica moldada a base do mais puro feromônio.
Caminhos
Duzentos e cinqüenta, trezentas pessoas. Essa era a estimativa para a festa de recepção do mais novo campeão do estado e mais ilustre morador do bairro. Vários amigos de infância e familiares foram convidados. Além dos curiosos e penetras que nunca faltam em qualquer festa.
Voltando da casa de uma cliente onde fizera um serviço de manicura, Dona Mocinha vê o tumulto da festa. Sem perceber, Mocinha vai se aproximando do portão de entrada bem no momento em que o ídolo do futebol e futuro milionário está chegando em casa, carregado nos braços dos amigos. Ela olha acanhada, mas logo depois reage encarando o homenageado como forma de retribuir o seu olhar fixo e seguro na sua direção.
-Entra! Vem aproveitar!
Fala ele ainda sendo carregado e com gestos indicando a festa que já estava pegando fogo.
Ela não entendeu a tamanha boa vontade, mas não titubeou e começou a se remexer no pagode que animava os convidados. Não demorou e a moça fora reconhecida pelos presentes que não escondiam interesse e desconfiaça com a sua presença.
-Mocinha, você por aqui? Que coisa boa! Tome uma cervejinha, vá!
Falou já um conhecido. Logo depois falou outro, e mais outro, e outro…
Ao perceber que tão conhecido quanto ele na região a moça era, o dono da festa se aproxima da sua convidada de última hora e se apresenta:
-Oi, sou Marcelinho! Sempre morei por aqui e nunca te vi… Como é seu nome?
-Márcia, mas todo mundo me chama de Mocinha.
-Você que é o jogador, né? Eu não sou muito boa nessas coisas de futebol, mas você tem aparecido até em revista de fofocas…
-Eu não te conhecia, mas já deu pra perceber que você conhece muita gente daqui da região, hein? Como que eu nunca te vi antes?
A conversa meio sem pé nem cabeça dos dois ficava cada vez mais tumultuada com a chegada de um, de dois, de vários amigos a interromper o desenvolvimento do confuso diálogo.
-Grande Marcelinho, tudo certinho?
Falava um ao chegar perto do craque.
-Tá fazendo falta por aqui, viu rapaz?
Falava outro.
-E a seleção, será que ainda rola esse ano?
Insistia outro na atenção do anfitrião. E sempre com muita boa vontade o homenageado respondia a todos. Porém, perdia sempre o contato e o fio da meada do papo com a intrigante Márcia. Com todo esse assédio naturalmente o papo encerrou.
A festa continuava, o pagode rolava, o churrasco era servido e todos se misturavam. A festa ao mesmo tempo em que recepcionava o novo ídolo brasileiro de futebol também carimbava a sua passagem para o universo dos ídolos do esporte. No dia seguinte ele embarcaria para ser apresentado no seu novo clube e lá ficaria por toda a temporada.
Antes de embarcar, Marcelinho confessa a um amigo próximo que estava querendo saber quem era aquela mulher que convidara de última hora. Prontamente, o amigo, sentindo um tom de admiração pela mulher no questionamento do craque, trata de avisa-lo:
-Marcelinho, meu irmão. O que tu, antes de qualqer coisa, deve saber é que aquilo dalí é um buraco sem fundo. Vá por mim! Tem gente que até hoje não parou de cair!
-Como assim?
Falou Marcelinho.
- Então, sabe essas mulheres que só prestam para serem dos outros? Que so merecem se olhada de longe? Que sabem enlouquecer e destruir a vida de um homem como ninguém?
-Sim, mas por que?
Indagou ainda sem querer entender o que o amigo queria dizer.
- Porque aquilo é um bicho. Na moral, você a acha bonita, elegante, inteligente, bem cuidada, simpática ou algo assim?
-Não, não… mas sei lá…
- Então, meu caro! Ninguém a acha. Mas muita gente ainda a quer de alguma forma. Por isso… vai cuidar de jogar bola, vai! Deixa esse mundinho sem futuro daqui pra quem ainda faz parte dele.
Sem entender o que acometia ao amigo ao proferir-lhe aquele diagnóstico, Marcelinho segue rumo ao seu futuro.
Continua…