
Poucas vezes cheguei a esse momento, de após inúmeras tentativas, após fazer de tudo para chamar sua atenção, ter de recorrer a esses mecanismos radicais. É drástico, é uma medida drástica. Sim, é! Mas tem coisas que devem ser feitas independente de qualquer outra, e aí não tem ética: é destino! Não tem sorriso ou pedido que me faça parar. Não tem dinheiro ou pessoa que me empeça de seguir em frente.
Minha avó certa vez me disse: “minha menina, tem coisas que não adianta a gente procurar entender o porque de tanto querer, nos resta somente o dever de ter”. Ela estava certa, sempre soube disso. E foi por causa disso que me ensinou a fazer isso tudo, posso até dizer que também me ensinou a ser assim. Bem, você sabe como. Ela dizia: “energia é tudo. A mágica da vida está na energia, a essência das pessoas também. E, por isso, não tenhas dúvida, essa é a nossa maior arma. Letal até para os principiantes e sua sorte, para os iluminados de alma forte, para os perdidos e a falta de norte, para os distraídos e o perigo de morte, para os blindados e o seu porte, para os evoluídos e sua mão-de-corte”.
Não tenho medo. Invoco, mesmo. Invoco a velha, a minha avó. Espírito velho, de índio, de escravo, de sofredor, mas de gente esperta, de gente sagaz. Gente que, mais do que saber bater sabe agüentar a violência de uma porrada da vida. Dessa forma, não vejo outra saída. Vais ter o que fizeste por onde ter, sem juízo de profania ou pré-juízo do teu destino. Não me aproximo de uma pecadora, que seja. Podes pensar o que quiseres. Pois, não peco ao querer, nem muito menos ao agir. Pecaria sim ao não querer, e muito mais ainda, ao não fazer.
Veja, está aqui a minha cara pálida, a minha visão borrada de lágrimas e os meus olhos vermelhos de raiva como prova. Está aqui o meu coração sangrado, as minhas forças diminuídas e o meu corpo vazio de vida. Repare, pois, tenho comigo também a visão, com muita clareza, do espinho que me perfurou, do tapa na cara que ainda arde forte, das queimaduras das humilhações a eterno fogo baixo que ainda sofro. Não deixarei barato.
Sabes que venho sonhado contigo há tempos? Todas as noites sonho contigo. Nunca consigo ver a tua cara, mas sei que é você. Não preciso ver, é energia. Eu sinto. Mais do que isso: é destino. Sempre como um príncipe, bonito, elegante, gentil. Vens até aqui em casa, abrem-se as portas, e… Foges! N-ã-o a-d-m-i-t-o isso! O que isso quer dizer? Medo, pavor, pânico? É, pelo menos, a reação que o teu corpo demonstra. Eu sei que você vem me procurar. Mais além, eu sei que você vem me buscar. E falta-te coragem.
Há algum tempo que não te espero mais, tomo a iniciativa. Confesso que algumas vezes eu fugi, fugi muito. Fugi de casa. Fugi dos homens. Fujo de todos os perigos dessa selva onde me encontro sozinha. Dessa casa cheia de armadilhas. Por onde passam muitos. E muitos vão e voltam. Mas por mim passastes apenas uma vez. E nunca mais voltastes. Eu sinto que chegas muito perto daqui, pensas em mim e martirízas-te. Porque ficou muito claro que uma grande surpresa acometeu a você. Mas a mim não, sempre soube de tudo. Desde o primeiro olhar.
Surpreendes-te consigo mesmo. Como um burro com vendas que somente consegue olhar para frente, abristes a porta da minha casa e soberano ordenas-te a minha submissão. Tinhas a certeza de que a mim seria apenas uma, ou mais uma, que estava a dar para você. E, não! Quando a minha mão tocou a sua, aquilo não foi mais apenas uma foda, foi a tua alma em puro sangue que me penetrava.
Eu sei, é o medo das armadilhas do subconsciente. É muito medo das mazelas do mundo real em tua vida lustrada. É pavor da mancha grande, ou de uma nódoa sequer, no teu passado ilibado. Entretanto, meu caro, terás de se acostumar. Porque a carga que te envio não é fraca. Porque cada sorriso, cada grito, cada pensamento ou cada gemido que sai de mim é em reação a tua pretensa representação.
Esta cama que sustenta este colchão fino e este lençol desbotado, que contigo ficou amassado, suado, entranhado de teu cheiro, agora passa a ser o templo da tua amarração. É o lugar onde enterraste o teu espírito. Ouvirás ainda muito o meu gemido em teus sonos agitados. Garanto que os gemidos serão gostosos, calmantes, baixinhos, mas muito perturbadores. Pois, uma coisa é certa, eles serão reais, muito verdadeiros. Sem dúvida, terão outros a me comer. E gritarei, gemerei e gozarei como se fosse com você, se te servir de consolo.
Outra hora irei acordar com a grata surpresa da tua companhia. Mas por enquanto, que esse meu esforço ainda não surte o efeito necessário, faço a minha parte. Mentalizo forte a tua cara, o teu corpo, o teu jeito, a tua voz. É essa energia que fará a tua estadia em minha casa. Que irá te receber e te segregar das tuas próprias limitações em ficar ao meu lado. Não será castigo, nem condenação. Será prêmio, privilégio. Estarás livre da tua própria soberba, da tua significante arrogância, dos teus imensos medos. Pois, vou te prover de forças imensas, de garras fortes e de uma paixão tão cega que me verás até na escuridão dos teus olhos. Assim, igual a um cão manso, me ouvirás atento ao proferir agora a tua sentença:
Universo astral que se alinha em marte,
Transforma em verdade esse pedido da cor de sangue.
Leva ao planeta vermelho e forte, instantes de nobreza;
Como da gravidade a forca sumária para sua realização.
Busca na terra os elementos necessários para um resgate,
Condena por ti as chagas da injustiça, o sangue do perdedor.
E aceita Ogun, coberto de sangue e de vida, como uma guia,
Machado e espada em mãos, vestido de marte.
Não divido por inteiro os ímpares, por isso que és um.
Mirra, sálvia, trevo e até arruda. Todos perfumando, ímpar.
Assim, moço, chegarás inteiro. Pois, sou ímpar, e seremos um par.
Viajarás no caminho do teu novo destino, vendo rubra a luz em ti.
Sentirás a minha presença, as minhas palavras e a minha agonia.
E já é pólvora em teus pés, por isso fogo guiará a tua direção.

- Eis aqui o novo integrante da nossa república! Direto de Bom Despacho, Minas Gerais: Saaamuell! – Falou com empolgação o presidente da república de estudantes, o atencioso Mário. Um jovem estudante do 3º ano do curso de agronomia.




