Novelinha – Destinos cruzados – Parte 1 de 4

 

Os dois

Analisando friamente a figura, não se via nada demais!  Na verdade, era como qualquer outra pessoa, aparentemente sem destaque. Porém, quem a conhecia afirmava que Mocinha estava longe de ser uma mulher comum. Sempre que passava deixava no ar aquele aroma de incertezas. Mesmo não sendo ainda casada, namorados e pretendentes aos montes rodeavam sua casa. Promessas, presentes, propostas de futuro próspero, humilhação, decepção, juras de morte, todas feitas pelos seus antigos pares, nunca faltaram ao seu histórico de relacionamentos.

Marcelinho jogava bola como ninguém na região. Já fizera parte do elenco de diversos clubes e dessa vez tinha acertado a mão, ou melhor, o pé, em cheio com o sucesso do seu time na última temporada. Tinha sido considerado a grande descoberta do Atleticano Futebol Clube nos últimos tempos. Era um jogador de uma habilidade absurda. Habilidade esta já reconhecida por seus amigos de pelada. Driblava correndo e olhando em sua volta; Conduzia a bola sempre de cabeça erguida, chutava de três dedos, de chapa, de bico com a maior eficiência e objetividade. Seu futuro de sucesso era certo e a comprovação viria ao final do campeonato estadual com a proposta de um grande clube do futebol brasileiro. Era de fato um ídolo.

Eis que ao final do campeonato surge uma proposta milionária para a jovem revelação do futebol brasileiro. Dinheiro a dar com pau. Dinheiro e fama para tirar qualquer pessoa do rumo e da rotina dos menos propensos a fortuna. Fama que já se espalhara por toda a região, por todo o estado, por todo o país e estava preste a ganhar o mundo. Era batata, nada seguraria a nova revelação do futebol brasileiro de estourar no cenário esportivo mundial. O contrato já estava sendo aprontado e as bases salariais definidas. Em poucos dias teria de se mudar.

Dona Mocinha, por sua vez, era pobre, desafortunada, sem modos e sem ambição. Ainda não tinha filhos, não sabia se por sorte ou por incapacidade. Manicura de profissão, não trabalhava muito, mas sabia muito da vida de todos e se exibia com o seu nome pronunciado pela boca dos outros nas rodas de fofoca. Era apenas mais uma suburbana, com um charme vulgar, com uma sensualidade deselegante e com muita malícia no seu comportamento. Era daquele tipo de mulher que cheirava a sexo, que assumia a rasa postura de uma persona diabólica moldada a base do mais puro feromônio.

 

Caminhos

Duzentos e cinqüenta, trezentas pessoas. Essa era a estimativa para a festa de recepção do mais novo campeão do estado e mais ilustre morador do bairro. Vários amigos de infância e familiares foram convidados. Além dos curiosos e penetras que nunca faltam em qualquer festa.

Voltando da casa de uma cliente onde fizera um serviço de manicura, Dona Mocinha vê o tumulto da festa. Sem perceber, Mocinha vai se aproximando do portão de entrada bem no momento em que o ídolo do futebol e futuro milionário está chegando em casa, carregado nos braços dos amigos. Ela olha acanhada, mas logo depois reage encarando o homenageado como forma de retribuir o seu olhar fixo e seguro na sua direção.

-Entra! Vem aproveitar!

Fala ele ainda sendo carregado e com gestos indicando a festa que já estava pegando fogo.

Ela não entendeu a tamanha boa vontade, mas não titubeou e começou a se remexer no pagode que animava os convidados. Não demorou e a moça fora reconhecida pelos presentes que não escondiam interesse e desconfiaça com a sua presença.

-Mocinha, você por aqui? Que coisa boa! Tome uma cervejinha, vá!

Falou já um conhecido. Logo depois falou outro, e mais outro, e outro…

Ao perceber que tão conhecido quanto ele na região a moça era, o dono da festa se aproxima da sua convidada de última hora e se apresenta:

-Oi, sou Marcelinho! Sempre morei por aqui e nunca te vi… Como é seu nome?

-Márcia, mas todo mundo me chama de Mocinha.

-Você que é o jogador, né? Eu não sou muito boa nessas coisas de futebol, mas você tem aparecido até em revista de fofocas…

-Eu não te conhecia, mas já deu pra perceber que você conhece muita gente daqui da região, hein? Como que eu nunca te vi antes?

A conversa meio sem pé nem cabeça dos dois ficava cada vez mais tumultuada com a chegada de um, de dois, de vários amigos a interromper o desenvolvimento do confuso diálogo.

-Grande Marcelinho, tudo certinho?

Falava um ao chegar perto do craque.

-Tá fazendo falta por aqui, viu rapaz?

Falava outro.

-E a seleção, será que ainda rola esse ano?

Insistia outro na atenção do anfitrião. E sempre com muita boa vontade o homenageado respondia a todos. Porém, perdia sempre o contato e o fio da meada do papo com a intrigante Márcia. Com todo esse assédio naturalmente o papo encerrou.

A festa continuava, o pagode rolava, o churrasco era servido e todos se misturavam. A festa ao mesmo tempo em que recepcionava o novo ídolo brasileiro de futebol também carimbava a sua passagem para o universo dos ídolos do esporte. No dia seguinte ele embarcaria para ser apresentado no seu novo clube e lá ficaria por toda a temporada.

Antes de embarcar, Marcelinho confessa a um amigo próximo que estava querendo saber quem era aquela mulher que convidara de última hora. Prontamente, o amigo, sentindo um tom de admiração pela mulher no questionamento do craque, trata de avisa-lo:

-Marcelinho, meu irmão. O que tu, antes de qualqer coisa, deve saber é que aquilo dalí é um buraco sem fundo. Vá por mim! Tem gente que até hoje não parou de cair!

-Como assim?

Falou Marcelinho.

- Então, sabe essas mulheres que só prestam para serem dos outros? Que so merecem se olhada de longe? Que sabem enlouquecer e destruir a vida de um homem como ninguém?

-Sim, mas por que?

Indagou ainda sem querer entender o que o amigo queria dizer.

- Porque aquilo é um bicho. Na moral, você a acha bonita, elegante, inteligente, bem cuidada, simpática ou algo assim?

-Não, não… mas sei lá…

- Então, meu caro! Ninguém a acha. Mas muita gente ainda a quer de alguma forma. Por isso… vai cuidar de jogar bola, vai! Deixa esse mundinho sem futuro daqui pra quem ainda faz parte dele.

Sem entender o que acometia ao amigo ao proferir-lhe aquele diagnóstico, Marcelinho segue rumo ao seu futuro.

 

Continua…

Dia dos Namorados (Reza Braba)

coracao quebrado

 

Poucas vezes cheguei a esse momento, de após inúmeras tentativas, após fazer de tudo para chamar sua atenção, ter de recorrer a esses mecanismos radicais. É drástico, é uma medida drástica. Sim, é! Mas tem coisas que devem ser feitas independente de qualquer outra, e aí não tem ética: é destino! Não tem sorriso ou pedido que me faça parar. Não tem dinheiro ou pessoa que me empeça de seguir em frente.

Minha avó certa vez me disse: “minha menina, tem coisas que não adianta a gente procurar entender o porque de tanto querer, nos resta somente o dever de ter”. Ela estava certa, sempre soube disso. E foi por causa disso que me ensinou a fazer isso tudo, posso até dizer que também me ensinou a ser assim. Bem, você sabe como. Ela dizia: “energia é tudo. A mágica da vida está na energia, a essência das pessoas também. E, por isso, não tenhas dúvida, essa é a nossa maior arma. Letal até para os principiantes e sua sorte, para os iluminados de alma forte, para os perdidos e a falta de norte, para os distraídos e o perigo de morte, para os blindados e o seu porte, para os evoluídos e sua mão-de-corte”.

Não tenho medo. Invoco, mesmo. Invoco a velha, a minha avó. Espírito velho, de índio, de escravo, de sofredor, mas de gente esperta, de gente sagaz. Gente que, mais do que saber bater sabe agüentar a violência de uma porrada da vida. Dessa forma, não vejo outra saída. Vais ter o que fizeste por onde ter, sem juízo de profania ou pré-juízo do teu destino. Não me aproximo de uma pecadora, que seja. Podes pensar o que quiseres. Pois, não peco ao querer, nem muito menos ao agir. Pecaria sim ao não querer, e muito mais ainda, ao não fazer.

Veja, está aqui a minha cara pálida, a minha visão borrada de lágrimas e os meus olhos vermelhos de raiva como prova. Está aqui o meu coração sangrado, as minhas forças diminuídas e o meu corpo vazio de vida. Repare, pois, tenho comigo também a visão, com muita clareza, do espinho que me perfurou, do tapa na cara que ainda arde forte, das queimaduras das humilhações a eterno fogo baixo que ainda sofro. Não deixarei barato.

Sabes que venho sonhado contigo há tempos? Todas as noites sonho contigo. Nunca consigo ver a tua cara, mas sei que é você. Não preciso ver, é energia. Eu sinto. Mais do que isso: é destino. Sempre como um príncipe, bonito, elegante, gentil. Vens até aqui em casa, abrem-se as portas, e… Foges! N-ã-o a-d-m-i-t-o isso! O que isso quer dizer? Medo, pavor, pânico? É, pelo menos, a reação que o teu corpo demonstra. Eu sei que você vem me procurar. Mais além, eu sei que você vem me buscar. E falta-te coragem.

Há algum tempo que não te espero mais, tomo a iniciativa. Confesso que algumas vezes eu fugi, fugi muito. Fugi de casa. Fugi dos homens. Fujo de todos os perigos dessa selva onde me encontro sozinha. Dessa casa cheia de armadilhas. Por onde passam muitos. E muitos vão e voltam. Mas por mim passastes apenas uma vez. E nunca mais voltastes. Eu sinto que chegas muito perto daqui, pensas em mim e martirízas-te. Porque ficou muito claro que uma grande surpresa acometeu a você. Mas a mim não, sempre soube de tudo. Desde o primeiro olhar.

Surpreendes-te consigo mesmo. Como um burro com vendas que somente consegue olhar para frente, abristes a porta da minha casa e soberano ordenas-te a minha submissão. Tinhas a certeza de que a mim seria apenas uma, ou mais uma, que estava a dar para você. E, não! Quando a minha mão tocou a sua, aquilo não foi mais apenas uma foda, foi a tua alma em puro sangue que me penetrava.

Eu sei, é o medo das armadilhas do subconsciente. É muito medo das mazelas do mundo real em tua vida lustrada. É pavor da mancha grande, ou de uma nódoa sequer, no teu passado ilibado. Entretanto, meu caro, terás de se acostumar. Porque a carga que te envio não é fraca. Porque cada sorriso, cada grito, cada pensamento ou cada gemido que sai de mim é em reação a tua pretensa representação.

Esta cama que sustenta este colchão fino e este lençol desbotado, que contigo ficou amassado, suado, entranhado de teu cheiro, agora passa a ser o templo da tua amarração. É o lugar onde enterraste o teu espírito. Ouvirás ainda muito o meu gemido em teus sonos agitados. Garanto que os gemidos serão gostosos, calmantes, baixinhos, mas muito perturbadores. Pois, uma coisa é certa, eles serão reais, muito verdadeiros. Sem dúvida, terão outros a me comer. E gritarei, gemerei e gozarei como se fosse com você, se te servir de consolo.

Outra hora irei acordar com a grata surpresa da tua companhia. Mas por enquanto, que esse meu esforço ainda não surte o efeito necessário, faço a minha parte. Mentalizo forte a tua cara, o teu corpo, o teu jeito, a tua voz. É essa energia que fará a tua estadia em minha casa. Que irá te receber e te segregar das tuas próprias limitações em ficar ao meu lado. Não será castigo, nem condenação. Será prêmio, privilégio. Estarás livre da tua própria soberba, da tua significante arrogância, dos teus imensos medos. Pois, vou te prover de forças imensas, de garras fortes e de uma paixão tão cega que me verás até na escuridão dos teus olhos. Assim, igual a um cão manso, me ouvirás atento ao proferir agora a tua sentença:

Universo astral que se alinha em marte,

Transforma em verdade esse pedido da cor de sangue.

Leva ao planeta vermelho e forte, instantes de nobreza;

Como da gravidade a forca sumária para sua realização.

 

Busca na terra os elementos necessários para um resgate,

Condena por ti as chagas da injustiça, o sangue do perdedor.

E aceita Ogun, coberto de sangue e de vida, como uma guia,

Machado e espada em mãos, vestido de marte.

 

Não divido por inteiro os ímpares, por isso que és um.

Mirra, sálvia, trevo e até arruda. Todos perfumando, ímpar.

Assim, moço, chegarás inteiro. Pois, sou ímpar, e seremos um par.

 

Viajarás no caminho do teu novo destino, vendo rubra a luz em ti.

Sentirás a minha presença, as minhas palavras e a minha agonia.

E já é pólvora em teus pés, por isso fogo guiará a tua direção.

Aos excomungados (Na conta do Papa)!

 

 

Santíssimo Padre,

Imagino que apenas um milagre possa ser capaz de fazer com que Vossa Santidade escolha esta humilde correspondência para ler. Sei que são muitos os fiéis, e muitos os pedidos também, por isso, não me abalaria caso o senhor não nos respondesse. São tão poucos os milagres nessa vida, os milagreiros então… Dá pra contar nos dedos! Pois, é tanta gente safada nesse mundo que não tem desenrolado da igreja que chegue… Hein, seu Papa?

Mas então, Santo Padre, escrevo ao senhor, porque, passamos por muitas dificuldades nos últimos tempos. Na verdade não sabemos o que são tempos fáceis, desde que nascemos. Aqui todo mundo é filho do mundo. Tem filho de bandido, de maconheiro, de regueiro, de matador, de bicheiro, de corno, de rapariga. Tem menino de todo jeito. O meu amigo aqui do lado então… Nasceu com uma lata de cola na boca. A mãe dele rodou muito por esse mundo. Era de rua em rua, de esquina em esquina, de mão em mão… Não tinha dinheiro pro leite da criança, então bota o pretinho pra cheirar cola. Por isso que ele tem esse olho miúdo e esse bucho de bola de sabão até hoje (já, já estoura).

Para viver, Deus nos deu a capacidade de escolher o nosso caminho. To errado? E muitos, graças ao santíssimo padre, escolheram o caminho da verdade. Mas outro tanto se deixou levar pelas facilidades dessa vida. Eu mesmo recebi e continuo recebendo muitas influências desse mundo em que vivemos. Até na hora de escrever esta singela carta me veio a idéia de enviá-la para outros Papas. Bob Jah, um doidão que criou a Igreja Rasta – Man de Jah -, é cultuado, e muito, pelo pessoal da redondeza. Mas o que poderia acontecer de bom caso ele me atendesse? Mandar rezar para os deuses da marafa? Ou então tostar uma hóstia “du bom”?

Outro Papa, “O Papa do povo”, também passou pela minha cabeça como uma pessoa que poderia nos ajudar. Com aquele coração enorme, não seria surpresa se ele nos atendesse. Falam que ele tem um cartãozinho mágico, que todo pobre agora tem. A mágica ainda é pequena, pois, se fosse grande não seria mágica, seria milagre. Assim o Papa já não seria mais Papa, e sim santo. Só não o enviei porque já estamos inscritos no programa do cartão mágico. Restando, assim, ter de ouvir um conselho de uma patroa, mal intencionada, que nos ajudas às vezes, por desencargo de consciência: “aquele dali, meus filhos, só vai atender a vocês se o pedido for uma garrafa de Cana. E olhe, de Cana! Porque se for de Rum já não é mais com ele, e sim com um amigo dele que mora mais ao norte, quase um irmão mais velho”. Não entendemos nada do que ela quis dizer. Deixei pra lá.

Mas, como Papa mesmo, de verdade, só existe um, que é o senhor, eu tomei a liberdade de contar a nossa história. Como já deve ter percebido, onde vivo é um orfanato. E um grande problema se debruçou sobre essa casa nos últimos tempos. O padre Jair, o santo-homem que cuida dessa instituição, foi advertido pelo novo Bispo. Sabe como é, né, santo padre? Povo fofoqueiro danado. Num pode ouvir falar de uma faísca que já vê uma fogueira. E mais, ainda diz que é São João.

O senhor conhece o Brasil. Todo mundo gosta de praia, futebol, um churrasquinho no final de semana. Tem até um deputado que propôs um projeto de lei para tornar todos os domingos o dia internacional do churrasco. É um povo festivo, alegre, cuidadoso… Então, nesse dia, padre Jair levou todos os meninos para ver um jogo, de futebol… Fomos convidados para o camarote e chegando lá… começou! Era um que vinha, e: “eita, seu Padre, trouxe um negocinho bom pro senhor hoje”. Outro: “prove essa daqui, padre Jair”. Mais um: “geladinha, trincando essa, hein?”. Era um camarote de político, e tome cerva, caninha, Pitú, Boazinha, Dreher, Old Eight, um vinhozinho pra rebater… Mas, olhe, Capeta não teve não, viu? O homem era católico… Só to dizendo isso pro senhor ficar logo despreocupado. O senhor conhece aquela tal de caipi… O que mesmo?

E o resultado dessas emoções de domingo foi à missa que o Bispo assistiu. Falaram que ele não gostou muito. Falaram que o padre tava todo desengonçado, enrolando a língua e fedendo a pinho sol… Aonde que isso poderia acontecer? Só pode ser coisa do povo mesmo. Por causa de uma besteira dessas o Bispo quer colocar uma freira pra cuidar do orfanato.

Sei que não é certo o padre Jair ter levado os meninos para um camarote daqueles, isso é coisa pra gente grande. Sei também que é errado ele bebericar daquele jeito. Mas pelo menos ele não dá o cu, né não, seu Papa? Pelo menos ele não deixa o Caveira invadir o Castelo de Greiscow, nem muito menos deixa ninguém botar colírio no olho de porco dele. Falo isso porque todo mundo sabe que tem um monte de padre por aí que adora escorregar na… Bem, o senhor sabe em que.

Padre Jair também não se aproveita das criancinhas. A gente já está acostumado a ver um monte de padre safado se esfregando em menino pequeno, indefeso. Sempre chegam com aquele papo sacana de: “mostra o seu que eu mostro o meu…”. Ou então: “belisca aqui que eu belisco ali”. Depois: “segura aqui e não deixa cair”. O senhor já foi menino e sabe bem como essa história evolui.

Várias vezes já vieram uns seminaristas aqui para o orfanato, e sempre que podiam tomavam banho junto com os meninos… Tem um menino aqui, o Jebson, a turma costuma chamar ele de Jegueson, sei lá porque. E todo esse pessoal do seminário adorava ele. Ele sempre tinha mais privilégios. Repetia o prato quantas vezes quisesse, comia mais de uma coxa de galinha, dormia com dois travesseiros, ganhava leitinho na cama e a todo o momento levava aquele tapinha amigo nas costas, seguido de um provocante: “Isso, meu menino. Quer comer mais alguma coisa?”. Padre Jair, muito sabiamente, aboliu essa farra. O menino estava ficando muito gordo.

Padre Jair, seu Papa, é um homem tão bom, tão bom que até torcer pra time pequeno ele torce. Num conte pra ninguém não, viu? Mas dizem por aí que ele torce pelo Náutico. Digaí, que homem de bom coração. Meio ruinzinho da cabeça e meio doente do pé, mas… Deixa pra lá.

Ser bom cansa muito, seu Papa. É muito mais fácil ser ruim. Se o senhor for ver com cuidado, era por isso que Jesus Nosso Senhor permitia que a turma que andava com ele tomasse uma gelada nas horas vagas. Era para os meninos descansarem. Porque só o homem bebo, mesmo, pra agüentar a ladainha do povo pedindo as coisas. Era um tal de me dá isso, me dá aquilo, socorre aqui, ajude acolá, cure esse, liberta aquele, faz um milagre aí, e por aí vai a infinidade dos verbos no imperativo. E isso porque o homem era santo, viu? Aí o povo respeitava mais. Imagine só se ele fosse vereador?

Dessa forma, solicito a Vossa Santidade que olhe com o coração para esses pobres filhos de Deus que já perderam a família uma vez, mas que com a benção de Deus conseguiram construir uma nova vida. É simples de entender, padre Jair também é um membro dessa família na terra. É o nosso pai, nosso irmão. Que erra muito, mas que nos ensinou que errar também é parte do nosso caminho. Tente, pelo menos dessa vez, ver que na miséria da vida na terra o bem pode ser feito com tão pouco. E nesse caso pode ser feito com um simples “não fazer”.

Dos seus filhos do Orfanato da Esquina do Lado,

Votos Eternos de Fé.

Boa noite, Bia!

Só pensava no avançar da hora que já consumia algumas voltas do relógio e anunciava a quase manha do dia seguinte. Nem assunto tinha mais, e nem saco de ficar arrumando papo onde não mais existia. É foda quando isso acontece. Confesso que por muito tempo me rendi a um discurso feminista de que não se separa sexo e afeto. Avaliem só se isso não é pura insegurança feminina? Mulheres nos contam, ou até mesmo acreditam nisso, para pegar aqueles que teimam em ser limitados à sua consciência. O problema é que, para elas, consciência é, além de algo abstrato como todos nós sabemos, algo extremamente passional. Para homens, consciência é aquilo que não aperta o coração quando alguma merda estoura. Por isso, sexo é sexo e afeto é afeto; e pronto e acabou!

 

Eu juro que queria saber o que lavara Bia a me fazer tal recomendação. Quando chegamos em sua casa, atravessando madrugada adentro, ela, meio sem jeito, tenta puxar um assunto: “Menino, vê se não some!”, disse ela tentando buscar um compromisso maior da minha parte. Claro que disse: “lógico! Vamos nos falando”, e pisquei o olho, de modo a faze-la ler as minhas aparentes intenções. Intenções que juro que gostaria que fossem uma espécie de “Confie em mim”. Mas era pura… Mentira. Meu coração nunca estivera sugestionado a realizar aquela resposta em verdade. Minha mente então… Nem se fala. Depois daquele beijo bem libidinoso, em sincronia com a passada de mão na coxa e nos seios, que desmascaram aquela camuflada sensação de “não-te-quero-mais-por-hoje”, vieram os três selinhos que fecham a conta e anunciam a despedida. Ela saiu do carro com um sorriso de satisfação. Estava entregue em casa, sa e salva, como sempre faço.

 

Antes de engatar a primeira e seguir o meu caminho de volta, eu já sabia que aquilo já tivera dado o seu máximo, pelo menos para mim. E ela poderia me perguntar milhões de vezes o que eu iria fazer, quando iria voltar e quando iríamos nos ver novamente, que milhões de vezes eu não contaria a verdade. Não gostaria de magoar ninguém. Apenas estava retirando o meu time daquele campo que joguei por algumas vezes. E por causa disso talvez ela sentisse, ou algo a avisasse, que eu já não estava mais ali. Que aquela despedida era apenas uma questão protocolar. Que tudo que eu viesse a falar, a elogiar, a questionar, era pura interpretação. Ficção medíocre. Mas, tudo bem… Continuei falando tudo aquilo que ela gostaria de ouvir. Uma vez me veio à cabeça: “não condenem a hipocrisia, ela é o maior anestésico das ásperas relações humanas”. Ou alguém prefere uma grande contrariedade in natura?

 

Eu e Bia já tivemos outra despedida. Lembro que depois de algumas saídas, tudo caminhava bem. Talvez rolasse até algo mais sério, um namorinho, quem sabe? Mas ela, que veio do Rio para trabalhar aqui, conseguiu ser selecionada em uma excelente pós-graduação em arquitetura em Barcelona. Talvez eu tenha sido o primeiro a saber do resultado da seleção. Ela estava ainda muito eufórica com a novidade, eu também achei muito bom. Ela passou ainda lá em casa, pegou-me e curtimos um motel a noite inteira. Naquele dia ela estava muito entregue, muito intensa, radiante. Trepamos tanto que o seu cheiro demorou uns três dias para desentranhar do meu corpo. Ficou um perfume meio cítrico, gostoso, porém, muito nada haver com a minha personalidade. Também era essência feminina. E foi ali onde começamos a nos despedir.

 

Dias depois a levei ao aeroporto. Ela demonstrava estar adorando aquilo tudo, e seu coração apertado pelo fim. Ou pela interrupção. Depois do seu embarque ainda recebi algumas mensagens de dentro do avião. E-mails e telefonemas ainda fizeram parte desse processo de mudança e despedida. Acho que passou um ano e meio ou dois anos, e Bia reapareceu. Deixou-me um recado pelo celular. Que, por incrível que pareça, continuava com o mesmo número. Muitas vezes tornei-me incomunicável por ter de trocar de número.

 

Acasos à parte, ela conseguiu me localizar. E foi certeira. Ela tinha voltado à sociedade de arquitetos que deixara em suspenso enquanto estudava. Também começaria a dar aulas em uma faculdade. Voltou cheia de projetos e novidades, e não via a hora de me contar todos. Ela queria dividir novamente aqueles papos-cabeça, tomar um vinhozinho, rir muito e quem sabe até fumar um. Marcamos de nos encontrar dentro em breve. E isso se tornou para mim um verdadeiro problema. Pois, ela mostrava-se decidida a retomar aquela história de onde foi obrigada a parar. Retomar talvez a partir de uma promessa ou outra que me fez por e-mail enquanto viajava. O que me surpreendeu, porque por mais que alimentasse um contato, mesmo que de rarefeita intensidade, eu não cogitava em evoluir naquele relacionamento. Eu não sei se fui displicente ou despretensioso demais. Mas imaginava que o que aconteceu tinha acabado e o que tinha para acontecer tinha passado.

 

Sou um cara bastante ansioso, por causa disso eu sei mexer com a ansiedade dos outros. Sabia que gerando enorme expectativa por um encontro, o que não deixou de acontecer quando nos falamos pelo celular, e não dando respostas nos dias seguintes, a deixaria ansiosa, senão nervosa. Juro que não tive apenas a intenção de trabalhar a curiosidade dela em reencontrar-me, queria mesmo redescobrir onde tivera guardado aquele sentimento que um dia me levou a estar ao seu lado. E assim saber se estava predisposto ou não a ver aonde aquilo poderia dar. Certa noite, numa sexta-feira, encontro sua mensagem encaminhada por sms: “Você não dá notícias… Queria muito te ver hoje!”. Para ser sincero, os últimos dois dias, antes dessa intimação bater em minha porta, Bia sequer tivera passado em minha cabeça. Mas liguei para ela na mesma hora em que vi a mensagem. Já passava das 22:00 quando apertei o botão verde do celular. Marcamos de sair, em uma hora estaria na porta da sua casa.

 

Brasília estava entregue às moscas naquela sexta-feira à noite. A cidade parecia estar de castigo, isolada no canto. Todos bares, restaurantes, boates, festas não atraíam ninguém. Nem os lugares mais populares da época, nem os mais tradicionais, chamavam a atenção. Já se aproximava da meia noite quando Bia entrou no meu carro. Vi de longe aquele sorriso bonito, simples, que sempre marcou sua personalidade. Continuava branquinha, corada, tagarela. Ela veio com um vestido colorido. Um desses da moda, meio folgado, com uma malha bem leve e sem muitos acessórios. Poucos acessórios para não poluir a visão do todo, que era ela. Poucos acessórios para que a manequim não tivesse de disputar a atenção de ninguém com objeto nenhum. Pouco acessório para não ter trabalho em tirar, quando necessário, ou até mesmo para não comprometer todo o seu repertório de uma única vez. Mas o que mais me chamou o interesse, foi que ao entrar no carro, eu não a vi, eu a senti sem calcinha. Eram poucos os acessórios.

 

Enquanto buscávamos algum lugar para sentar e reconversarmos, a chuva não parava de cair e de engrossar. A noite ia perdendo o brilho de uma Friday Night e ia ganhando o chame de um encontro a dois. Pelo menos era o que me contava, ela, enquanto buscávamos. Decidimos. Fomos para o meu apartamento. Lá sempre tem boas opções. Bebida, comida, uma mesa de carteado, alguns vizinhos amigos e abrigo contra a chuva. Lá a gente ouviria um som eletrônico enquanto ela falaria da Espanha. Foi toda orquestrada essa ida para casa, eu assumo. Pois, enquanto Bia falava e puxava assuntos e mais assuntos, minha disposição quase revelava a minha intima insatisfação por estar ali sem ter motivação para dividir com ela as suas novidades. Fui prático, sabia que indo para minha casa ela cairia na cama.  E não deu outra.

 

Sem muita conversa, apenas com um sonzinho ligado, fui despindo Bia. Ela estava com um perfume gostoso, acho que era novo. Pelo pescoço, pelo busto, pelo colo, nas costas. Ela ainda esboçou protelar o ato, mas não resistiu por muito tempo. Entregou-se e derreteu. Uma, duas, três vezes. Ainda bem que o seu perfume continuava preservado, agora misturado com suor, aquilo me instigava. Acho que depois dessa série de sexo, dormi uns dez minutos. Ela estava completamente estendida sobre mim, sua cabeça em meu peito. O som rolava pela segunda vez. A música não convidava a qualquer reflexão. A situação era que me pegava pelo pé. A situação que me puxava à consciência no canto e tentava encontrar no coração alguma coisa que justificasse aquela situação instalada.

 

Bia dormia profundo. Eu pensava profundo. Queria sair logo daquela condição. Pelo seu rostinho eu gostaria de deixa-la dormir o quanto quisesse. Gostaria de faze-la sorrir quando acordasse. Gostaria de que se sentisse segura de verdade, de que eu fosse um cara com quem pudesse contar. Mas eu não agüentava mais. Aquilo tudo parecia repetido, parecia claustrofóbico demais suas pernas, braços e cabeça sobre o meu corpo. Agonia. Pensei e decidi tolerar mais três músicas, e assim acorda-la. Não sei por que decidi assim, três músicas. Mas quando a terceira acabou, não me contive em chamá-la. Já estava quase pronto quando ela despertou. Já estava com a chave do carro na mão, com a mão na maçaneta e caçando os chinelos. Ela estranhou, mas entendeu e atendeu prontamente. Voltamos para o começo. Íamos de volta á sua casa. O círculo fechou, voltamos ao começo. Fechou o ciclo da noite, da nossa história. Pois, não durou muito para que eu entendesse que estávamos andando em círculos.

 

E assim, quando chegamos em sua casa, atravessando madrugada adentro, ela, meio sem jeito, tenta puxar um assunto: “Menino, vê se não some!”. Eu juro que queria saber o que levou Bia a me fazer tal recomendação. Respondi com um convincente “lógico! Vamos nos falando”, e pisquei o olho, de modo a faze-la ler as minhas aparentes intenções. Intenções que juro que gostaria que fossem uma espécie de “Confie em mim”. Mas era pura… Mentira. Meu coração nunca estivera sugestionado a realizar aquela resposta em verdade. Ela saiu do carro com um sorriso de satisfação. Estava entregue em casa, sa e salva, como sempre faço. Só pude, de todo coração, desejar que ela tivesse um verdadeiro boa noite, Bia.

Bom Despacho

- Eis aqui o novo integrante da nossa república! Direto de Bom Despacho, Minas Gerais: Saaamuell! – Falou com empolgação o presidente da república de estudantes, o atencioso Mário. Um jovem estudante do 3º ano do curso de agronomia.

- Opa! Tudo bem pessoal? – Falou de forma tímida o recém-chegado do interior.

- E aí! – Foi a resposta uníssona dos outros moradores da casa que ficava nos arredores da universidade.

- Deixa eu te apresentar o pessoal antes de mostrar a casa e o seu quarto. Esse aqui é o Fred, da História; Esse aqui é o Germano, da sociologia; Esse aqui é o Cesinha, da publicidade; Esse aqui é o Matoso, da engenharia; Bem, e eu… Você já sabe! E você, passou pra qual curso? – Foi gentil, o futuro agrônomo.

- Vim fazer Artes Cênicas, Teatro!

- Po, mas com esse sotaque… Sei não, viu! Só vai pegar papel de matuto. – Falou, Cesinha. E a gargalhada acometeu a todos, até mesmo o aspirante a ator. Que teve de rir também para não se sentir ainda mais menosprezado.

- Bem, esse engraçado aqui é quem vai ser o seu companheiro de quarto. É bom vocês irem logo se acostumando um com o outro… – Falou o chefe, apontando para o futuro publicitário. E ordenou:

- Cesinha, mostra a ele o quarto de vocês!

- Uai, so. Ele num sabe se virar, não? – Respondeu, Cesinha, ao se levantar, com um sorriso no rosto tentando fingir sua insatisfação com o seu novo companheiro. E engatou, ainda sustentando o sorriso cínico:

-Vamos lá, irmão! É por aqui, ó!

Na hora do jantar o papo sempre rolava solto, mais para uns do que para outros. Tinha uns que não falavam, só comiam. Começavam a matar a fome antes do Jornal Nacional e só voltavam a se ressocializar no começo da novela das nove. Mas dessa vez todo mundo participou:

- Mermaaao, tem muita gatinha nova. Ta cheio de calourinha por aí… Adoro, viu? – Comentou Fred.

- Quero ver essa calourad!. To prevendo que vai ser pouco apenas um dia pra agitar geral! – Continuou Matoso.

-Porra, nesse teu curso só tem homem, caralho! – Retrucou Cesinha, ao estudante de engenharia.

- É verdade! Essa galera só bebe e fala merda. Não come ninguém e também não coloca uma mina sequer pra jogo, porra… – Concordou Germano, puxando a risadagem.

- E nas Artes Cênicas, Samuca? Como que é a situação?

- É, tem umas lá que são bonitas, viu?

- Então, irmão! Vamos juntar esse pessoal aí na Calourada. Já saquei andam falando que tu é pinta, que tem o contexto das meninas… E aí, que história é essa?

Depois do jantar e do futebol todos foram para seus respectivos quartos, inclusive Samuel, já intimamente chamado de Samuca, e Cesinha. No quarto, antes de dormir:

- Então Samuca, nego ta te zoando muito por causa do teu sotaque, irmão?

- Po, sempre sobra pra mim, né fii? Falo umas paradas que o pessoal não perdoa. Mas… Nem ligo pra isso, não.

- Depois tu pega a manha do pessoal daqui e fica tranqüilo.

- É…

Os dois não tinham muito haver. Tanto pelo escracho do publicitário quanto pelo instinto natural de defesa do menino do interior. Mas o papo continuou:

- Essas fotos são da onde?

- Nova York, véi! Conhece, não?

- Po, eu sei que lá as escolas de teatro são as melhores. Mas nunca fui, é muito caro, né?

- Que nada, dá pra ir de boa!

E sustentando valores astronômicos, para os parâmetros do jovem Samuel, Cesinha largou a falar em um tom cada vez mais arrogante para o seu companheiro de quarto.

- Foda é o sotaque de lá. Prefiro o sotaque da Califórnia. È muito mais irado, mais claro e mais maneiro também. Nego em Nova York não fala “New York”, acaba falando: “Nu York” ou “Nú Jerzy”. Mas po, a balada é animal! E aquele leite fresco com chocolate que vendem na frente do Madison Square Garden é fantástico… E a Cow Parede, então… Putz! Realização plástica absurda… – Falou César, na tentativa de plantar de fato uma espécie de menosprezo no companheiro de quarto, fazendo referencia a alguns tipos do meio rural que se apresentavam na agitada cidade de Nova York, como: o sotaque, o leite fresco, as vacas…

O semblante pálido no rosto do mineiro dava total impressão do seu não entendimento daquilo tudo que acabara de ouvir. Mas os dias foram passando e Samuca foi pegando o jeito da cidade grande. Até que chegou o dia da Calourada. E meio desacreditado em sua performance, o futuro ator até já se contentara em apenar encher a cara, intimidado pelos comentários dos seus amigos republicanos:

- Essa cidade é foda. Só tem mulher marrenta, nojenta. Pra pegar alguma mina tem que ser o foda, o herói. Só se pegam com uns caras muito metido a besta. Mas hoje nem quero beber, quero azarar. Essas minas vão passar mal na minha, mão! – Sintetizava empolgado, Fred, os comentários proferidos por todos os homens, todos os dias.

No meio da festa, já meio aéreo, o jovem ator revela seus dotes cênicos e inspira todos os outros companheiros a comentarem:

- Porra, mané! O filho da puta pegou a mais gatona de todas! Que mineiro nojento!

- Mermao, o que é que rolou? Num botei fé nesse moleque ter pegado essa gata, não…

- Qual foi o cao, pra ele segurar essa mina?

Depois de três dias de grande repercussão, o mineirinho já famoso pelo feito revela por telefone o segredo daquela noite para um velho amigo seu de Bom Despacho,:

-Po, fii! Falaram que aqui tem que ser todo metido a besta pra ficar com umas meninas… Então eu comecei a falar um monte de coisa depois que ela me perguntou de onde eu era. Disse que era de Minas, mas tinha morado em Nova York pra fazer teatro… Mas que “Foda é o sotaque de lá. Prefiro o sotaque da Califórnia. È muito mais irado, mais claro e mais maneiro também. Nego em Nova York, não fala “New York”, acaba falando “Nú York” ou “Nú Jerzy”. Mas po, a balada é animal! E aquele leite fresco com chocolate que vendem na frente do Madison Square Garden é fantástico… E a Cow Parede, então… Putz! Realização plástica, absurda...

C.R.I.A…

São inúmeras as coisas na vida que te fazem se sentir mal. Todos nós sabemos disso. Pois bem, a televisão me faz sentir muito mal. Mas quem me dera que fosse pelo fato de dela sair tantas coisas desagradáveis. Tantas injustiças e aberrações cotidianas… Quem me dera. Não fico mal com isso, ou melhor, por isso. Longe de mim a alcunha de insensível. Mas, uma verdade: aquilo me atrai. E muito. Aquela caixinha brilhando, com aquelas imagens se movimentando, aquele som saindo… É um mantra! Hipnotiza-me, arranca minhas forcas.

Hoje estou com a barba grande, com o cabelo mal penteado, com uma preguiça digna de uma enorme ressaca de um carnaval bem vivido. Pois, ontem sequer comi direito, sequer tive inspiração pra ver a luz do dia, o lago, os livros. Ontem eu só tinha tesão pra fazer uma coisa: nada. E é justamente isso que me deixa mal. Com culpa. Mas foi, e continua sendo irresistível. Foi por instinto. Foi com dolo, assumo, que deixei de fazer tudo para me dedicar ao meu dia de Hommer Simpson e seu esporte habitual, assistir televisão. Ou seja, fazer nada.

O problema todo é esse: fazer nada. Pior, o problema é ter o sentimento vivo de que estamos produzindo algo de útil! De que ao ver televisão somos capazes de pensar. Muito pelo contrário, assistimos televisão para podermos parar de pensar. E ao nosso lado, pelo menos ao meu, sempre se reproduz um sentimento mascarado que me domina e domina toda aquela situação: o comodismo.

Parece uma sessão de hipnose, reverberando nas profundezas de um cérebro refém de si memso: “o filho agora vai ser acomodar… Acomode-se. Acomode-se no sofá. Acomode-se na cama. Acomode sua mente. Acomode… O filho agora vai olhar para frente e não pensar em nada. Deixe a luz cuidar da mente do filho… Deixe a luz… A mente do filho…”

Eu me sinto mal. O mal de um viciado. De um viciado cansado. São várias horas por dia em frente da tv. Várias vezes por dia que penso em fazer outra coisa. Várias vezes ao dia lembro do livro pela metade. Do carro sujo. Da cidade que ferve. Do corpo que fala “sim” para uma corrida básica, ou um esporte qualquer. E o que me rende isso tudo, além de horas dedicadas ao nada? Talvez alguns papos inúteis à beira de um bar. Local que, além de servir como antídoto para esse problema televisivo, também me faz refletir: o que será pior, ser um telespectador ou a famigerada cana em seu fim mais entorpecedor? Não sei a resposta e não quero esquentar com isso. Estou com preguiça. Embora, confesso, tenha mais medo da tv.

Quantas vezes soube de pessoas que mal assistem televisão? São várias. Graças a deus tenho feito parte de um grupo muito saudável! É louvável. Mas assumo meu vício. Vício feio, vício sujo. Vício que vem do Latim e quer dizer: “hábito de proceder mal, costume censurável ou condenável, costumeira, hábito prejudicial, libertinagem, defeito, ação indecorosa que se pratica por hábito, erro, dolo.”

Invejo essas pessoas. Pois, quantas vezes cheguei, depois da faculdade, em casa e perguntei a empregada o desfecho diário da novela? Fico até meio envergonhado em dizer. Mas sei onde isso começou. Foram naquelas inocentes vezes em que fingia, ainda criança, estar doente para poder assistir ao “Sessão da Tarde”. E que depois se extendeu para Malhação, depois a novela das seis, depois a das sete, o Jornal Nacional e hoje vai muito, muito além do Jô.

Não quero mais isso. Não quero mais rodar ansioso em casa procurando o que fazer e não conseguir tirar o pensamento dos três controles remotos que comandam minha vida. Não quero mais precisar da Renata Fan e da galera do “Esporte Total” no meu dia. Porra, eu torço pro Sport Clube do Recife! Eles nunca falam nada do Sport, pelo menos nada de bom, do meu time do coração! Lógico, eles são uns paulistas vendidos! Tudo bem, tudo bem… Vou procurar voltar ao meu estado mais normal. Mas é que esse assunto me deixa louco… Eles um dia ainda ão de se curvar… Ahh, também não quero mais ficar viajando nas gostos… Opa, Nas apresentadoras do Globo Esporte! Aquela pequenininha é muito linda…

Por isso, à algum tempo tenho tomado medidas drásticas. Tirei a televisão do meu quarto. Troquei-a por um abajur bacana. Fiz um plano de redução do tempo gasto com tv por dia. Tem sido muito difícil, mesmo sendo em doses homeopáticas. Tenho lido vários livros. Cuidado do jardim de casa, estudado muito. Tenho animando até pra fazer um blog em conjunto com uns amigos… Mas ainda preciso, mesmo assim, da televisão. Ainda tenho essas fortes recaídas. Ainda preciso de algumas fortes doses de inutilidades diárias.

Bem, amigos, essa é a minha história. Agradeço a todos os irmãos do Centro de Reabilitação de Imbecis Anônimos (C.R.I.A.). Esse lar de amparo que tem me fortalecido tanto. Muito obrigado pela forca. Ainda não estou limpo. Mas um dia voltarei a esse púpito e, com certeza, receberei esses aplausos por “mais um dia limpo”.

Obrigado.

Poema Marginal (subversivo)

      

“Coca para os ricos;

Cola para os pobres;

Coca-cola, viva essa emoção!”

Minha mãe decide me matar, e morrer.

Anjo Ceschiatti - Catedral Bsb

Eu nunca mais tinha me sentido tão alegre, tão excitado, como naqueles momentos de prova na escola em que subitamente faltava luz. A escuridão nem era tão grande, eu estudava de manhã mas a professora era obrigada a dispensar a turma. Talvez pela gritaria e urros de felicidade que a turma proferia, talvez pelo calor sufocante com a parada do ventilador. O importante era que íamos embora contagiados por uma alegria de rara intensidade.

Foi assim que me senti quando dei o meu primeiro e único tiro. Foi bom, foi bom demais. Nunca bebi, nunca fumei, mas meu coração, meu camarada, quando apertei aquele gatilho pela primeira vez, nunca bateu tão forte. Era molinho, molinho. Fácil… Sem esforço, ele: “pá”! Pipocou. E tem que ser assim, mesmo. Gatilho mole, dedo nervoso. Se a arma é para atirar, por que ela mesma dificultar esse processo?

Eu me lembro muito bem da força daquela atração. Lembro-me dos quatro latidos que o cachorro do vizinho deu logo após o disparo, ele nunca tinha latido tão assustado como naquela vez. Acho que fora o único a assistir a tudo aquilo. Minha única testemunha ocular. Lembro-me bem do olhar profundo do animal, meio sem forca para sustentar o horizonte, e com um focinho molhado que, inundado de medo, inalava algo de ruim. Foi o primeiro a me condenar. Deu as costas e entrou para sua casinha.

Fiquei com a visão completamente borrada. Com o impacto do disparo, minha nuca bateu forte na parede em que me apoiava para mirar. Andei ainda alguns instantes completamente trôpego, até ter consciência do que acabara de se realizar. Durante esse momento eu era mais que um menino franzino cambaleante, eu era um corpo comandado por um cérebro completamente atônito, desorientado pelo prazer liberado por uma enxurrada de endorfina.

Minha mãe nunca tinha falado nada. Eu, e ninguém daqui de casa, sabia da sua existência ainda por aqueles tempos. Sem dúvida aquilo marcou muito minha infância. Acho que ali estava mais da metade das emoções que acumulei durante a minha vida em família. Refiro-me a uma caixa de madeira. Uma caixa feia, daquelas de colocar verduras na feira. Meu pai era verdureiro, e a caixa fora dele. Pensei que minha mãe tivesse se desfeito de tudo que fora do velho desde sua morte. Foi assim com as suas roupas, suas fotos, sua banca na feira, seus trambolhos da torcida do Santa Cruz, sua conta no bar, até com as suas lembranças. Se não me engano, faz três anos que minha mãe não toca no nome do meu pai. A não ser pra nos lembrar que: “ele deveria ter sido corno quando vivo. Num mereceu um dia de paz nessa casa. Velho filho da puta…”. Falava dos milagres, porém não pronunciava o nome do santo, nem a pau. Então, por que ela guardou aquela merda de caixa?

Foi culpa minha, abrir a caixa com o nome “Companhia Dois Irmãos” gravado em um de seus lados. Meu pai trabalhava para essa Companhia. Era a empresa que produzia os tomates que ele vendia na feira. Foi de repente que a encontrei dentro do guarda-roupa, por baixo de vários trapos velhos que minha mãe sempre separa para dar no inverno. Puxei-a de uma única vez. A caixa quase se despedaça com o solavanco. Eu já sabia do que se tratava aquele objeto. Era onde meu pai guardava tudo aquilo que ele não gostava. Tinha uma bíblia que ele pegou da minha mãe quando ela inventara de virar crente; tinha jogos de vídeo game que ele confiscara dos filhos; tinha os cadernos velhos onde anotava os prejuízos que levara em tempos de vacas magras na feira; tinha uma garrafa de cana que simbolicamente minha mãe colocara enquanto ele tentava parar com o alcoolismo. Tinha fotos das viagens do velho pelo interior, sempre acompanhado de um monte de raparigas, que minha mãe pusera na caixa depois que ele partiu. E tinha uma cartucheira de couro recheada por uma pistola calibre 38.

Meu pai nunca foi de briga. Era de paz. Era daquelas figuras que gostava de conversar, de contar piadas. Mas era matuto, muitas vezes carrancudo demais. Tinha uns valores que não largava de forma alguma. E mais, queria que toda a família dividisse isso com ele. Por isso, não aliviava se o caldo entornasse para o seu lado. Que eu me lembre, ele só saiu armado de casa umas cinco ou seis vezes, apenas. Era sempre pra dar cabo em ladrão que rondava a barraca dele no Ceasa. “Num gosto disso, não. Nem quero usar. Mas não tem perdão pra ladrão. E aviso logo, pra quem quiser se candidatar, que também não tem conversa com o donzelo que vier perigar a mulher daqui de casa, e nem com o palhaço que inventar de virar viado”. Ele gostava de ser desse jeito. Tinha certeza que sendo dessa forma, e carregando um revolver nos quartos, nunca seria roubado, nunca seria corno e nunca teria um viado na família. Se o trabuco realmente tivesse esse poder de transformação talvez eu não tivesse feito essa merda. Ele morreu atropelado. Estava desarmado.

Em poucas vezes tive certeza de alguma coisa. Aquele momento não tivera sido diferente. Não sabia como fazer. Nem muito menos por onde começar. Nunca fui certeiro em minha vida. Mas sempre fui assertivo, tentando sempre executar com sucesso. Dessa vez, tive a estranha satisfação de ser tanto um como o outro. Pois, o tiro não tivera saído pela culatra. Mas o resultado… Aconteceu sem eu perceber, durante uma briga. Mais uma briga com ele. Nervoso, cansado, humilhado. Eu só respondi aos meus instintos e determinei logo o nosso destino.

Sei que ele era meu irmão, mas eu não agüentava nem mais um pouco o peso de sua sombra. Sempre foi mais bonito, mais simpático, mas querido pelos amigos. Amigos que nunca foram meus, que nem se quer me deram a chance de me aproximar. Eu era irmão dele, mas ele nem precisava de um irmão… Talvez ele nunca tivesse entendido ou percebido, mas até o seu olhar me doía. Sua sombra, sua luz, suas palavras me achatavam contra o chão. E o pior não era isso. O pior era ter de aceitar que uns tem mais chances que os outros. Que o mundo é com alguns mais benevolente e com outros um grande carrasco. Que numa família um tem a luz e outro tem de se conformar com a sombra de todos os outros.

Minha avó falou muitas vezes a minha mãe: “teu marido morreu, minha filha? Não te salvou nem um real no banco e, ainda por cima, deixou uma barraca cheia de dívidas que só não são maiores que as da conta do bar? Mas, saiba, que é agora, com esses dois meninos, que começa o teu calvário”. Pois é, parece que a velha estava certa. Porque agora minha mãe está sem marido, sem filho caçula, sem o filho mais velho e sem vida. Pois ela me matou de seu coração, e morreu para o mundo. Assinou sua carta de despejo da terra dos felizes, dos prósperos, dos saudáveis.

Hoje ela jaz em casa, sem paz nenhuma. Nega-se a me receber de volta. Sei que sua mente não agüenta mais remoer esse assunto. Seu espírito deve se revirar em seu corpo pobre, sem motivação para viver. E tudo isso por negar-me um perdão. Por sequer conceder-me um olhar, mesmo em pensamento. E ela sente o calor da falta que me faz. O que ela não entende é que aquele disparo não deveria atingi-la tão mortalmente, não era sequer para aleija-la. Ela poderia ter um suspiro de vida a mais se me aceitasse. Mas é dela a decisão de morrer.

Por vê-la definhar do jeito como imagino, hoje me arrependo. Porque agora sei que não é o tiro que mais fere, nem a bala que conjuga o verbo matar. É o egoísmo que mata. É esse sentimento mesquinho que fode com todo mundo, que toma a iniciativa de atuar como juiz de todos nós. Que impera na mente dos menos afortunados de paz, dos inseguros. Capaz de nos fazer acreditar que somos capazes de moldar o mundo aos nossos valores. Capaz de dizer-nos: “eu reino” e quero o mundo à boca do cano do meu revolver, cabendo apenas nos limites da minha intransigência. Mostrando-te sempre que o seu dedo é mais nervoso, que teus valores são mais inflexíveis.

Agora entendo por que ela ainda guardava a caixa. Pois, naquela caixa, da “Companhia Dois Irmãos”, restavam os elementos do nosso destino. Era o nosso oráculo. Uma caixa surpresa, Pandora talvez. Eu poderia ter escolhido tirar as lembranças do meu pai de dentro dela, ou então as dívidas das nossas vidas. Mas foi um revolver que brilhou aos meus olhos e saltou em minhas mãos.

Promessas…

- Parou?! Parou?!

- Ai, meu Deus! Eu morro de medo quando isso acontece!

- Isso é uma lata velha mesmo! Faz tempo que deveriam ter consertado essa porcaria e nada!

- E o perigo que isso oferece? Parece que só prestam atenção ao perigo quando acontece uma tragédia…

No meio desse tumulto, uma voz sensata fala ao interfone:

- Seu Francisco, estamos parados entre o oitavo e o nono andar. Por favor, venha nos tirar daqui. Ou ligue para o síndico e mande ele nos livrar disso logo.

A gritaria continuava e a reclamação geral não cessava. O antigo elevador carregava muito mais do que o peso por ele suportado. Estava esquentando lá dentro, e três das quatro pessoas quase entrando em pânico, enquanto o porteiro tentava resolver o problema.

- Doutor Paulo, ta me ouvindo? Consegue me ouvir?

Falou o porteiro pelo interfone.

- Sim, pode continuar!

- O síndico está fora e eu não tenho a chave do elevador. Vai ter que chamar os bombeiros. O menino que trabalha comigo lá na portaria já ligou para eles, agora tem que esperar!

Ao ouvir a informação do porteiro, curiosamente, ninguém reclamou com o pobre funcionário. Mas a falação recomeçou:

- Meu Deus! Me salve! E se cairmos no poço do elevador? E se Faltar ar?

Falou dramaticamente uma mulher.

- Meu pai, é hoje que eu morro! Tenho que tomar meu remédio, se não for na hora marcada eu não sobrevivo!

Falou sobressaltada uma senhora.

- E eu que disse que ia comprar cigarro a minha esposa, e isso já faz mais de uma hora! Pelo menos agora tenho uma excelente desculpa! Obrigado, meu Deus!

Pensou alto um jovem cansado da rotina matrimonial. O tempo foi passando e os bombeiros não chegavam. Com o passar do tempo somado ao calor infernal o grupo cansado de tanto reclamar começou a se desesperar. Um desespero real, mas com gestos brandos, como se estivessem conformados por estarem entregues à própria sorte. E realmente estavam.

Assim, sem parar de falar, começaram a prometer:

- Eu juro que quando eu sair daqui eu nunca mais pego esse elevador novamente. Subirei onze andares de escada! Mas não ando nesse elevador novamente!

Falou arrogantemente a velhinha enferma.

- Senhor, eu me entrego em tuas mãos. Juro que atenderei a cada criança de rua que me parar no sinal e pedir um trocado.

Falou falsamente a senhora dondoca.

- É parceiro, aqui estamos nós! Mais uma vez me cobrando, e caro, hein? Mas nessa situação a gente tem que se apegar com quem está do nosso lado. E dizem que tu sempre está, neh? Então, eu senti que isso é um aviso que estás me mandando… Juro que não vou mais sair pra dar um rolé e enganar a mulher, não!

Nessa hora o elevador balançou bruscamente, como que se fosse cair. E instantaneamente o rapaz voltou a falar, e jurou em pânico:

- Eu paro de fumar também! Eu juro, eu juro! Por tudo que é mais sagrado…

 

***

 

Assim, após tantas promessas e juramentos, a porta do elevador finalmente é aberta e do alto do nono andar um bombeiro extende a sua mão. O primeiro a sair foi seu Paulo, o que falou ao interfone. A alegria foi geral, o semblante de todos os outros modificou-se instantaneamente com a luz do dia novamente tomando o elevador. Logo após, ouve-se um enorme barulho e uma gritaria desesperada de um horror quase sem fim. O elevador caiu! Todos que restavam nele morreram. Assm, na comoção íntima e perplexa do seu Paulo, um bombeiro de nome estranho se aproxima e diz:

-Não se preocupe, seu Paulo! Eles não iriam cumprir todas aquelas promessas mesmo…